Koolhas Houselife – Ila Bêka e Louise Lemoine

Koolhaas Houselife é um dos documentários da série Living Architectures que é composta por uma simples equação: pessoas comuns vivendo em espaços projetados por grandes arquitetos, como Richard Meier, Frank Gehry e Rem Koolhas. O filme em questão apresenta a personagem principal, a governanta Guadalupe Acedo, em sua sistemática rotina na Maison Bordeaux (1994-1998), projetada pelo escritório OMA/Rem Koolhaas.

Vista externa da casa. Foto: Pinterest.

Vista Externa. Foto: Google.

A casa foi projetada para um casal, cujo marido é portador de necessidades especiais e usa cadeira de rodas e seu filho. Tal limitação física é o ponto de partida para o que os arquitetos chamam de “coração da casa”, um elevador-plataforma de 3x3,5m, que liga os três andares da casa com fluidez e permite ao marido, liberdade de locomoção em sua casa, bem como acesso aos livros, obras de arte e vinhos, localizados em estantes que formam um envoltório para o elevador.

A residência é uma obra importantíssima para a história da arquitetura, uma “obra de arte”. Situa-se em um ponto mais elevado, em que é possível ter uma vista incrível da cidade. Cecil Balmond assina o completo projeto estrutural que permite que os volumes sustentem-se de forma visualmente sutil. Tais detalhes técnicos e conceituais não são, entretanto o tema principal do documentário, muito pelo contrário. O objetivo aqui é mostrar uma “obra-prima” sob a percepção de pessoas comuns, as que limpam, arrumam, trocam lâmpadas, cuidam do jardim, das infiltrações, entre outros.

Guadalupe e seu aparato de limpeza subindo pelo "coração da casa", o elevador plataforma. Foto: ArchDaily.

Para Guadalupe a casa não é nada funcional. Três situações relatadas por ela podem ilustrar essa opinião: quando chove, infiltrações aparecem em vários lugares (e que inclusive estão comprometendo a estrutura); os armários da cozinha são custosos para o uso diário, pelo fato de ter que tirar um módulo inteiro para procurar o que precisa; e a estrela do projeto, o elevador-plataforma, que, apesar de ser circundado por centenas de objetos, não pode entrar em contato com nenhum deles em seus movimentos de subida ou descida, pois travam o deslocamento do mesmo. As percepções e críticas dela estendem-se também ao aspecto visual “Se eu pudesse comprar isso aqui... não, não! É muito cinza! Tudo muito cinza!” e estrutural da casa “Olhe aqui, por exemplo, me fale, como isso permanece em pé? Não há nada aqui, tudo bem, há uma parede aqui, mas ela não sustenta nada.

Interior da casa, que ilustra a planta livre e a aparente flata de estrutura da casa relatada por Guadalupe. Foto: Google.

A governanta poderia estar no lugar do casal Fernanda e Wilson, que disseram a frase que é título do texto “Arquiteto sempre tem conceito e esse é o problema”, escrito por Kapp, Nogueira e Baltazar, 2009. Na percepção dela, aquela casa é um espaço estranho para morar e que nunca vê os moradores felizes ou sorrindo ali. A partir de tal ponto, surgem alguns questionamentos: “Para quem a arquitetura é produzida?” O casal encomendou um projeto complexo, mas a partir do momento em que a complexidade de concepção do projeto espelha-se no uso do espaço construído, aquilo deixa de ser um produto para o usuário e passa a ser uma “obra de arte” para o arquiteto/escritório exibirem em exposições e prêmios de arquitetura. Os modernistas concebiam a casa como máquina de morar, mas o que vemos aqui parece ser uma “máquina de exibição”: é conceitualmente complexa, e visualmente bela e inquietante, ou seja, uma obra de arte!

O que vemos no documentário é um relato sincero de percepção de quem usa o espaço, algo que é tão subjetivo, mas incrivelmente importante. O arquiteto urbanista não é só aquele que projeta construções ou cidades, ele é o profissional de lida com o espaço, seja ele macro: uma região metropolitana ou uma cidade; seja ele micro: uma casa ou um ambiente. Além de levar em consideração os aspectos técnicos e formais, que são essenciais e que são praticados incansavelmente na universidade, é preciso trabalhar com a subjetividade do espaço: questões como identidade e pertencimento, ou seja, como o aquilo pode e influencia a vida e a rotina daqueles que vivem ali, estão de passagem ou que apenas tem um sentimento e lembranças de determinado espaço.

A iniciativa de Bêka e Lemoine trazem um impulso para abrir essas novas discussões. Para discutir e questionar a arquitetura, muito além dos especialistas, dos prêmios Pritzker e das Bienais de Veneza!

"Nosso objetivo é democratizar a linguagem erudita da crítica de arquitetura. A liberdade de expressão sobre o tema da arquitetura não é propriedade exclusiva de especialistas." (BÊKA, 2015)



Referências Bibliográficas
VIENNE, Veronique. Críticas de Arquitetura pelo Povo para o Povo: Os filmes de Ila Bêka e Louise Lemoine. Disponível em:<http://www.archdaily.com.br/br/761859/criticas-de-arquitetura-pelo-povo-para-o-povo-os-filmes-de-ila-beka-e-louise-lemoine>. Acesso em: 11 jun. 2017.

REM KOOLHAS, OMA . Maison à Bordeaux. Disponível em: <http://oma.eu/projects/maison-a-bordeaux>. Acesso em: 11 jun. 2017.


EICHEMBERG, André Teruya. Koolhaas em meio à chuva ou os trajetos perceptivos da Sra. Guadalupe. Disponível em:<http://oma.eu/projects/maison-a-bordeaux>. Acesso em: 11 jun. 2017.

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