Cirurgia de Casas, Rodolgo Livingston
Quando se pensa em "cirurgia de casas", logo se faz uma analogia ao termo aplicado na área biológica, ou seja, o ato de tratar, realizar intervenções em traumas. E aqui Livingston pontua uma questão que relaciona-se intrinsecamente como o texto das autoras Silke Kapp, Priscila Nogueira e Ana Paula Baltazar: "arquiteto sempre tem conceito, esse é o problema".
O "conceito" do arquiteto vem colocado em cheque desde seu período acadêmico: nas disciplinas de ares, desenho e, principalmente, projeto, o aluno é incentivado a quebrar volumes, criar ambiências, incentivar fluxos, fazer jogo de formas e volumes, inovar, produzir um espaço de um "nada". Os exemplos usados pelos professores são renomados profissionais, os chamados star architects, suas obras gigantescas, grandes ícones. O que se espera do recém-formado é que se espelhe nesses nomes, que deixe a sua marca.
A realidade, entretanto, nos mostra cidades com grandes problemas de infraestrutura, de habitação, mobilidade etc etc, ou seja, possuem seus problemas mais básicos no que diz a moradia e qualidade de vida. A cidade e as pessoas, não tem demanda por star architects, mas sim por profissionais que entendam suas necessidades básicas e consigam propor soluções simples e dentro do orçamento. Como afirmou Livingston, "Na Argentina entre 60% e 70% das moradias se reformam uma ou mais vezes durante sua vida útil." que é uma realidade geral.
O ato de reformar, ou seja, fazer cirurgias em casas enfrenta vários problemas: é uma demanda grande e real, mas também não é vista com tão bons olhos dentro da profissão, além da dificuldade do profissional arquiteto urbanista em realizar a cobrança dos honorários e entrar em sintonia com seu cliente. Pensar em requalificar um espaço é uma das essências dessa profissão. Mesmo que seja um microespaço, ele interfere, condiciona e influencia a vida dos seus usuários. Muito mais que ter uma assinatura de sucesso, é preciso aos arquitetos garantir a função social da profissão. É preciso que estejamos abertos a novos desafios: conversar com o cliente no mesmo idioma, deixando os silogismos formais de lado, pensando que esse não é um sub-serviço, muito pelo contrário.
Pensar na complexidade do espaço, fazer uma leitura completa de suas necessidades e demandas e propor soluções simples , que passam por uma análise crítica que conta com toda a sensibilidade e percepção espacial desenvolvida pelos arquitetos urbanistas é muito mais que fazer cirurgia em casas, é fazer cirurgia na vida das pessoas, é se realizar como profissional que exerce com pureza e maestria sua profissão.
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